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A viagem de 15 dias ao Japão que me fez voltar diferente e com lições para a vida

A viagem de 15 dias ao Japão que me fez voltar diferente e com lições para a vida

São 5h17 da manhã. O quarto do nosso hotel em Tóquio está escuro e o meu corpo não sabe que horas são. O meu corpo acha que são seis da tarde, e por isso acordou completamente desperto, com fome e cheio de ideias. O jet lag é uma espécie de ressaca. És tu, mas não és bem tu.

Levantei-me, fui até à janela, abri as persianas e olhei para Tóquio às cinco e meia da manhã. E foi aí que percebi que o Japão ia ser diferente de tudo o que já tinha visto.

Não havia ninguém na rua mas as luzes estavam todas acesas. Os semáforos mudavam de cor para carros que não existiam. Ao longe, um autocarro passou, pontual, silencioso, com o motorista de luvas brancas, desaparecendo na esquina como se nunca tivesse estado lá. Nesse momento percebi: Estou mesmo no Japão…

Embarque no Celebrity Millennium

Chegámos ao terminal de Osanbashi em Yokohama no dia 21 de abril. O Millennium estava lá, imponente, com aquela elegância discreta que a Celebrity sabe fazer bem. Não é o navio mais recente da frota, isso seria o Edge, o Excel ou o Beyond, mas tem algo que os navios mais modernos às vezes perdem quando ficam demasiado ocupados a impressionar: tem alma.

Para o grupo, o navio era o nosso ponto de ancoragem. O sítio onde voltávamos ao fim do dia depois de sermos completamente engolidos pelo Japão. E há algo de reconfortante nisto de entrar a bordo, ouvir inglês outra vez, beber um gin tónico e perceber que ainda és europeu, que não te transformaste completamente num ser que faz reverências, bate palmas e agradece tudo três vezes.

O serviço a bordo era, como sempre na Celebrity, muito bom. Há uma coisa interessante em ter japoneses e europeus a bordo do mesmo navio: os europeus sorriem mais alto, os japoneses sorriem mais fundo. Não sei explicar.

Shimizu e o Monte Fuji que quase não acreditámos ver

O primeiro porto foi Shimizu, no dia 22 de abril. E aqui começa uma das primeiras lições do Japão: a natureza japonesa tem agenda própria e quando o navio atracou, estava um pouco de nevoeiro.

O Monte Fuji tanto aparece como desaparece. Os japoneses sabem isto melhor do que ninguém e há pessoas que visitam Shimizu várias vezes e nunca o veem com clareza. Por isso quando o Kazunori Matsui, o nosso guia, nos disse ao microfone do autocarro que tínhamos “suuerte, muita suuuerte” que quase dava para ouvir o sorriso na sua voz, percebemos que estávamos a ter um dia especial.

E tínhamos. O Fuji estava ali, (quase) limpo, quase perfeito, apenas uma nuvem na parte de baixo. Não por dois segundos. Durante tempo suficiente para o absorver a sério, a silhueta inconfundível, a neve no topo, aquela presença calma que faz sentido num país que venerou esta montanha durante séculos.

Subimos ao miradouro de Nihondaira, olhámos, e ficámos em silêncio. O tipo de silêncio que um grupo de portugueses só faz quando é mesmo necessário.

E como se o Fuji não chegasse, ainda apanhámos algumas (poucas) cerejeiras em flor… tardias, as últimas da época em Miho-no-Matsubara, a faixa costeira de pinheiros classificada pela UNESCO. Pétalas brancas, pinheiros centenários, o Fuji ao fundo. O Matsui tinha razão. Suuuerte. Muita.

Osaka: o Japão sem gravata (e com chuva)

Osaka é diferente. Se Tóquio é o Japão corporativo e elegante, Osaka é o Japão que gosta de comer, beber e rir. Há uma expressão japonesa: kuidaore, que significa “arruinar-se a comer”. É o lema não oficial de Osaka, e percebe-se porquê.

Visitámos o Castelo de Osaka, o Jardim Nishinomaru, e pelo bairro de Shinsekai só decidimos fazer uma panorâmica de autocarro (por causa da chuva), um bairro retro com uma energia que parece saída de um filme de Takeshi Kitano.

Choveu. Choveu muito. O tipo de chuva que obriga a uma decisão: ou te rendes e voltas para o navio, ou abres o guarda chuva, aceitas que os sapatos vão ficar molhados, e segues em frente. A maioria seguiu em frente. Com algumas reclamações pelo meio, é verdade (somos portugueses, não somos monges Budistas), seguimos até ao Mercado Nishiki, onde chuva não chegava. São 400 metros cobertos que cheiram a tudo ao mesmo tempo, missô, peixe grelhado, óleo de sésamo, incenso, e algo doce que nunca consegui identificar. Provei o famoso tako tamago (um minúsculo polvo recheado com ovo de codorniz), espetadas de marisco, tempura de ostra e vegetais e os doces tradicionais de Mochi.

Já de volta ao navio senti a constante vigilância da Torre Tsutenkaku que dominava o horizonte como uma antena de televisão dos anos 50.

Quioto: onde os torii vermelhos nos engolem

No segundo dia, o navio ficou e nós seguimos até Quioto. A chuva finalmente deu tréguas e começámos a visita no Santuário Fushimi Inari. Milhares de portais torii vermelhos em fila indiana a subir a montanha.

A verdade é que não estávamos sozinhos. Estávamos longe de estar. Milhares de torii, sim, mas também milhares de pessoas por baixo deles, telemóveis no ar, cotovelos a roçar nos nossos. Não era o que tínhamos imaginado. Mas foi muito melhor assim do que não ter ido.

Fiz grande parte do caminho em silêncio. Não foi uma decisão minha, aconteceu. E no meio daqueles portais vermelhos que se multiplicavam montanha acima, pensei na Nádia e na Sofia. Em casa, mais uma vez, a segurar as pontas enquanto eu estava aqui do outro lado do mundo a perseguir algo que ainda estou a construir.

Há uma leveza estranha em sentires-te pequeno. Ali, debaixo daqueles milhares de torii erguidos por pessoas que acreditavam em algo maior do que elas próprias, percebi que o caminho que tenho feito é exatamente isso: uma sequência de decisões que custam no presente mas que fazem sentido quando pensas no futuro. No legado. Naquilo que um dia a Nádia e a Sofia vão olhar para trás e reconhecer.

Saí do Fushimi Inari mais leve do que entrei. Em paz. Não esperava isso de uma fila de portais vermelhos com milhares de turistas por baixo. Mas o Japão continua a surpreender-me.

De tarde, o Castelo de Nijo, Património Mundial da UNESCO com os famosos “pisos rouxinol” que rangem deliberadamente para anunciar visitantes e uma caminhada pelas ruas de Higashiyama, com as suas casas de madeira, as lojas de chá e cerâmica, e aquela sensação de que o século XXI ficou para trás.

Ao fim do dia, voltámos ao navio. O grupo estava silencioso, mas era um silêncio diferente do da manhã. Era o silêncio de quem percebeu, que dois dias não chegam. Que Osaka e  Quioto não se visita em tão pouco tempo. E que saímos dali com a sensação incómoda e boa ao mesmo tempo, já estava a pensar em voltar.

Kochi: o Japão que (quase) ninguém visita

Kochi foi uma surpresa. Não estava nos planos emocionais da viagem (confesso que pouco sabia) toda a gente estava mais focada em Quioto e Tóquio e talvez por isso tenha sido dos dias mais autênticos.

O Jardim Botânico Makino tem uma calma que não existe em lugares acostumados a receber turistas. Não havia filas, não havia grupos com guarda-chuvas erguidos no ar, não havia lojas de souvenirs a cada 50 metros. Só árvores, plantas, flores e caminhos de uma beleza e cuidado extremos.

O jardim tem o nome de Tomitaro Makino, o botânico japonês que dedicou a vida inteira a catalogar e estudar as plantas do seu país. E há um detalhe sobre ele que não consigo deixar de contar: o Sr. Makino vestia-se sempre da forma mais elegante possível. Não por vaidade, mas porque as flores eram, dizia ele, as suas amantes. E para as suas amantes, havia que ir sempre muito bem arranjado.

Há qualquer coisa de profundamente japonês nesta ideia. O cuidado com o detalhe. O respeito pelo belo. A convicção de que aparecer bem é uma forma de honrar o que se ama.

Saí do jardim a pensar que o Sr. Makino tinha percebido qualquer coisa sobre a vida que a maioria de nós ainda está a tentar descobrir.

O Templo Chikurinji, a 31.ª paragem da famosa Peregrinação de Shikoku, estava meio vazio quando chegámos. Um senhor idoso rezava sozinho ao lado de um nabo que levou como oferenda. Não olhou para nós. Nós tentámos não fazer barulho e conseguimos durante aproximadamente 40 segundos, até que decidimos fazer uma fotografia do grupo nas escadas e tudo mudou…

De tarde, no Mercado Hirome Ichiba, percebi uma coisa sobre a gastronomia japonesa: não há vergonha no ato de comer. Comer bem, comer muito, comer depressa ou com atenção é um ato quase moral. Há restaurantes em Kochi onde o chef te olha nos olhos enquanto te serve o peixe, e não é arrogância é respeito pelo que acabou de fazer.

Kochi é a capital do katsuo no tataki, atum selado na palha, fumado, cortado grosso, servido com gengibre e alho. É o prato da região, o prato de que toda a gente fala, o prato obrigatório provar quando se está em Kochi.

Não provei.

O tempo não chegou, ou pelo menos é o que digo a mim próprio. A verdade mais honesta é que parte de mim guardou isso deliberadamente. Como quem deixa o último capítulo de um bom livro para depois. O katsuo no tataki ficou em Kochi à minha espera. É uma boa razão para voltar. E no Japão, razões para voltar acumulam-se com uma facilidade assustadora.

Busan: saímos do Japão por um dia e a Coreia do Sul valeu cada minuto

No dia 27, fomos a Busan, na Coreia do Sul. E a diferença foi tão imediata como quem sobe o volume do rádio.

A Aldeia Cultural de Gamcheon é construída numa encosta íngreme com casas coloridas que parecem empilhadas umas sobre as outras. Foi construída por refugiados da Guerra da Coreia e essa informação muda completamente a forma como olhas para as cores. Não se trata de decoração, mas sim de sobrevivência com dignidade. No meio das casas coloridas, e algures numa das curvas estava o Principezinho, aquela figura pequena e universal que aparece nos sítios mais inesperados do mundo como se soubesse exatamente onde precisa de estar.

No Cemitério Memorial das Nações Unidas fiquei em silêncio. É inevitável. Há milhares de soldados enterrados ali, de 11 países diferentes, unidos por uma causa que não era a deles por nascimento mas que escolheram como sua. Pensei na dimensão desse gesto, países diferentes, línguas diferentes, histórias diferentes, todos ali pelo mesmo motivo: libertar um povo que não conheciam.

Há uma lápide que não consigo esquecer, em forma de lago e com peixinhos lá dentro. Homenageia J.P. Daunt, um soldado australiano que morreu em combate durante a Guerra da Coreia. Tinha 17 anos. Dezassete. Saí dali sem conseguir dizer muito.

Terminámos no Mercado de Peixe de Jagalchi (o maior da Coreia do Sul) e o contraste foi tão brutal que o cérebro demorou uns segundos a processar. Barulhento, húmido, cheio de vida e de coisas que se mexem. Não provei nada, fiquei a olhar para a quantidade de peixe e para o tamanho do marisco com aquele misto de admiração e respeito que se tem por algo que claramente não é para toda a gente comer. Os locais comiam, conversavam, riam, completamente alheios a nós. Éramos intrusos no seu quotidiano e eles nem ligavam. Há algo de libertador nessa indiferença.

Mas o momento gastronómico de Busan veio da nossa guia Joanna, que nos ofereceu o famoso Ssiat Hotteok, o doce tradicional frito de Busan. Uma espécie de panqueca aberta ao meio, recheada com uma mistura generosa de sementes de girassol, sementes de abóbora, amendoim e sésamo. Quente, crocante por fora, macio por dentro. O tipo de coisa simples que fica na memória precisamente porque não estava no programa. Obrigado Joanna.

Busan deixou-me uma sensação difícil de explicar: modernidade, caos e tradição tudo ao mesmo tempo, na mesma rua, às vezes na mesma esquina. É uma cidade que merece (e muito) uma visita.

Ah! E antes de voltar ao navio ainda houve tempo para uma paragem estratégica. O famoso creme de baba de caracol coreano, conhecido pelos seus milagres na pele, faz as delícias de muitas senhoras. Comprei para a minha.

Que fique registado que fui um marido atento do outro lado do mundo.

Nagasaki: o peso que não se vê

Há cidades que carregam história de forma visível: em monumentos, museus, placas comemorativas. E há cidades onde a história está no ar, misturada com a luz e com o silêncio das pessoas. Nagasaki é essa cidade.

O Parque da Paz é formalmente bonito. As estátuas são grandes, os jardins bem tratados, os turistas respeitosos. Mas é no Museu da Bomba Atómica que percebemos o que aconteceu aqui. Não há forma de sair daquele museu igual a como entraste. É fisicamente e psicologicamente impossível.

O que me impressionou foi a forma como os japoneses contam esta história. Sem raiva. Sem vitimização. Com uma dignidade que não sei se seria possível noutro país. Saímos em silêncio. Almoçámos quase em silêncio. E a conversa demorou a voltar… lentamente.


De tarde, Dejima, a ilha artificial onde os holandeses viveram durante séculos como os únicos ocidentais autorizados a estar no Japão, é uma metáfora perfeita para a relação do Japão com o mundo: deixamos entrar, mas nos nossos termos.

O que poucos sabem (ou recordam) é que antes dos holandeses, fomos nós. Os portugueses foram os primeiros ocidentais a chegar ao Japão, em 1543, e durante décadas tivemos um papel central no comércio, na diplomacia e na evangelização. São Francisco Xavier desembarcou em Kagoshima (o porto que visitámos no dia seguinte) e a influência portuguesa deixou marcas que ainda hoje existem na língua japonesa. Palavras como pan (pão), koppu (copo) ou tabako (tabaco) são portuguesas disfarçadas de japonesas.

Mas o Japão fechou-se. E quando o fez, escolheu os holandeses que eram mais comerciais e menos missionários… e mandou-nos embora. É a vida.

Caminhar em Dejima com este contexto na cabeça é uma experiência estranha. Há qualquer coisa de agridoce em perceber que estivemos tão perto de deixar uma marca maior e que a história decidiu de outra forma. Mas talvez o pan que os japoneses comem ao pequeno almoço seja suficiente.

E não fica só no pan. O Kasutera (ou Castela) o bolo tradicional japonês que se vende em todas as confeitarias de Nagasaki, é inspirado no nosso pão-de-ló. Os japoneses pegaram numa receita portuguesa de quinhentos anos, refinaram-na com a sua obsessão pelo detalhe e pela perfeição, e hoje vendem-na como um dos doces mais emblemáticos do país. Provámos em Nagasaki e é, honestamente, melhor do que muitos pães-de-ló que já comi em Portugal. Não sei se isso nos deve envergonhar ou orgulhar. Talvez as duas coisas ao mesmo tempo.

Deixamos para o final o Glover Garden que nos mostrou outro lado de Nagasaki, o da influência europeia, dos jardins com vista para o porto, dos edifícios ocidentais que sobreviveram intactos.

Kagoshima: lava, termas e um castelo samurai

Kagoshima tem o vulcão Sakurajima a olhar para a cidade do outro lado da baía. É literalmente um vulcão ativo a 4 quilómetros do centro. E os habitantes de Kagoshima vivem com isso como nós vivemos com o tráfego: é inconveniente, por vezes, mas é a vida.

Começámos o dia no maior pedilúvio do Japão, são 100 metros de costa vulcânica com água termal natural. Mergulhei os pés e fiquei ali mais tempo do que o previsto. Há qualquer coisa de profundamente justo em pôr os pés em água quente que vem da terra depois de dias a andar.
O Campo de Lava Taisho é outro mundo. Pinheiros a crescer sobre rocha negra solidificada. Miradouros sobre o Sakurajima com fumo a sair do topo. Alguém do grupo perguntou se era seguro. O guia disse que sim, com o tipo de confiança que ou é genuína ou é profissionalismo puro. Assumimos que era as duas coisas.

O Castelo Tsurumaru não se visita por dentro, o que visitámos foi o Goromon, o maior portão de castelo de todo o Japão. Imponente, desproporcional de uma forma que parece deliberada, como se os arquitetos quisessem que ficasses pequeno só de o olhar. E ficas mesmo.

O castelo foi o centro do poder do clã Shimadzu durante séculos, uma das famílias mais poderosas e duradouras da história do Japão feudal, que governou a região de Kagoshima durante quase 700 anos com uma combinação de força militar, diplomacia e orgulho que ainda hoje se sente no ar da cidade. Foram os Shimadzu que resistiram à unificação japonesa mais do que qualquer outro clã. Foram também eles que, paradoxalmente, abriram Kagoshima ao mundo ocidental numa época em que o Japão se fechava sobre si próprio.

É aqui que a história volta a bater-nos à porta. No mercado junto ao castelo, o nosso guia, o Sr. Nanaeda Toshihiro, professor universitário reformado com uma capacidade rara de transformar história em conversa, apesar do seu parco espanhol aprendido recentemente, mostrou-nos com evidente orgulho uns vitrais onde estava representado São Francisco Xavier. Enviado por Portugal, jesuíta, missionário incansável que dedicou a vida à evangelização na Índia e no Japão, São Francisco Xavier desembarcou precisamente em Kagoshima em 1549 e é hoje o padroeiro universal das missões.

Ver o seu rosto num vitral japonês, numa cidade do sul do Japão, apresentado por um professor japonês reformado com genuíno respeito e conhecimento, foi um momento em que a história deixa de ser passado e se torna presente.

Portugal esteve mesmo aqui. E Kagoshima não esqueceu isso.

Tóquio: demasiado para um artigo, demasiado para uma vida

Voltámos a Tóquio em três dias distintos: 1, 2 e 3 de maio, e Tóquio merecia um artigo completo só para si. Mas há alguns momentos que não posso não contar, por isso resumirei…

A passadeira de Shibuya. Fotografiei-a, filmei-a, olhei para ela durante dez minutos. Não consigo explicar por que razão é hipnótica, mas é. Talvez seja porque em Portugal uma passadeira com metade daquela gente já teria pelo menos três pessoas a buzinar, dois miúdos a correr em sentido contrário e um cão sem trela. Em Shibuya, 3.000 pessoas atravessam em simultâneo, em todas as direções, sem colisões, sem empurrões, sem olhares de irritação. É coreografia involuntária. É civilização em modo avançado.

Também visitamos o teamLab Planets, em Tóquio, foi um momento inesperado da viagem. É um museu de arte digital onde entras descalço, os pés na água, e és rodeado por instalações que confundem os teus sentidos de forma completamente deliberada. Não há palavras para descrever o quarto das borboletas digitais ou o espaço dos espelhos infinitos. Podes tentar, mas vais soar como alguém a descrever um sonho. Só faz sentido estando lá.

O Hie Shrine, o Hama-rikyu, o Zojo-ji, cada um destes lugares seria o ponto alto de um dia noutro país. Em Tóquio, são escalas entre o almoço e as compras em Akihabara, o bairro da tecnologia e da cultura pop japonesa, onde podes comprar desde um processador até uma figura de ação de um anime que nunca viste e mesmo assim queres levar.

O ‘Ken’ como carinhosamente o tratávamos, nosso guia em Tóquio, Kenichi Matsushiro, um homem de poucas palavras, sorriso largo quando não percebia a pergunta e precisão cirúrgica, parou no início da Takeshita Street, olhou para os dois lados, e disse com a serenidade de quem já viu tudo: “Café com porquinhos para a direita. Lojas de griffe para a esquerda.” E ficou à espera.

Harajuku tem isso: no meio das lojas de roupa e doces, há cafés temáticos onde se toma uma bebida na companhia de gatos, porcos, cães e até capivaras. Só os japoneses para conseguirem transformar em conceito de negócio viável tomar café com animais. O grupo dividiu-se em segundos. Uns foram para a direita. Outros para a esquerda. O Ken ficou no meio com um sorriso que não denunciava qual era a escolha certa.

Fomos ao Ueno Park, o Saigo Takamori no seu pedestal, o museu nacional, o lago cheio de carpas. E de tarde, na Ameya-Yokocho, o mercado coberto perto de Ueno, percebi que o Japão tem esta capacidade rara: dar-te o luxo e o quotidiano no mesmo dia, e nenhum dos dois fica diminuído pelo outro.

Deixamos para o ultimo dia o Meiji Shrine. A avenida de cedros centenários que leva ao santuário obriga-te a abrandar.

Da espiritualidade à irreverência a Takeshita Street, em Harajuku, é o oposto absoluto do Meiji Shrine e fica a menos de dez minutos a pé.

O almoço foi no Asakusa Sumo Club com direito a espetáculo de sumo ao vivo. O sumo não é um desporto. É um ritual. Cada movimento, cada postura, cada segundo de imobilidade antes do embate tem significado. Purificação, respeito, invocação. Rimos, aplaudimos e saímos com um respeito genuíno por algo que tínhamos visto apenas em documentários.

De tarde, o Templo Senso-ji em Asakusa, o mais antigo de Tóquio, fundado no século VII, recebeu-nos com uma energia diferente de tudo o que tínhamos vivido até ali. Início de maio em Asakusa é uma época especial, uma antecipação que se sente nas decorações, nas bancas da Nakamise Shopping Street, nos preparativos visíveis para o Sanja Matsuri, um dos maiores e mais aguardados festivais de Tóquio, que acontece normalmente no final de maio e que transforma Asakusa numa celebração coletiva de fé, música e tradição.

A Nakamise Shopping Street foi o último mergulho no Japão quotidiano. Doces, artesanato, recordações, cheiros, cores, turistas e locais misturados sem hierarquia. Deixei o grupo à vontade, sentei-me num banco, e fiquei a olhar.

Era o último dia. E o Japão ainda tinha coisas para me mostrar.

O que o Japão faz às pessoas

Houve um momento, algures no terceiro ou quarto dia, em que dei por mim a fazer coisas que raramente faço em viagem.

Estava a organizar o meu lixo que trazia nos bolsos ou na mochila, sim porque os caixotes do lixo no Japão são separados por tipo. Estava a falar mais baixo em espaços públicos. Já não estranhava tirar os sapatos antes de entrar em certos espaços  e estava a agradecer com uma ligeira inclinação da cabeça em todos os locais que entrava…

Quando visitas o Japão ninguém te pede nada. Ninguém te pede para te comportares de determinada forma, ninguém te pede para ir fumar nos locais designados para fumadores, embora sejam a maioria ao ar livre. Ninguém te pede para moderares o tom de voz. Ninguém. O Japão cria as condições para que te comportes naturalmente assim.

Há uma palavra japonesa ‘ma’ que não tem tradução direta para português e que significa o espaço entre as coisas. A pausa. O vazio que tem significado. Os japoneses usam-na em arquitetura, na música e na comunicação. Na prática, significa que o silêncio não é ausência, mas sim outra forma de presença.

Vivemos numa cultura que preenche todos os espaços, com barulho, com conversa, com música de fundo, com notificações. No Japão, ao fim de alguns dias aprendi que o ‘ma’ é respeitado e tu começas a respeitá-lo também. E quando voltas, estranhas o barulho constante, as buzinadelas no trânsito. Quando regressas não estranhas o Japão… estranhas a Europa.

A gastronomia como linguagem

Há uma coisa que aprendi sobre comer no Japão: nunca é casual. Mesmo numa banca de rua, mesmo num bowl de ramen servido por um senhor de avental que não te olha nos olhos mas que pôs o coração naquele caldo há intenção. Há respeito pelo processo.

Mas há uma honestidade que preciso de ter: a gastronomia japonesa não é para todos. Não porque seja má (para mim é extraordinária). Mas porque exige uma abertura cultural que nem sempre está disponível quando estás a 10.000 quilómetros de casa e o teu estômago ainda pensa que são quatro da manhã.

É uma cozinha construída sobre sabores que não fazem parte do nosso vocabulário gustativo. O umami, esse quinto sabor profundo, salgado e mineral, está em todo o lado, mas é subtil de uma forma que pode confundir um paladar habituado ao azeite, ao alho e ao tomate. O dashi, base de quase tudo, é feito de algas e peixe seco e tem uma profundidade que ou entendes imediatamente ou olhas para a tigela sem entusiasmo. Vi as duas reações no grupo regularmente.

Há quem tenha comido tudo com genuína curiosidade e descoberto coisas que não sabia que existiam. Comi o melhor tofu da minha vida numa banca de rua. Comi sushi em Shimizu com um grau de frescura incrível. Comi pratos tradicionais e doces que pareciam estranhos. O Japão não te julga.

O almoço num restaurante tradicional em Busan foi uma revelação de outro tipo: kimchi, sopas que aquecem por dentro, arroz cozido em potes de pedra, parece medicinal e que nos lembraram que a Ásia não é uniforme mas um continente de sabores completamente distintos. E o almoço no Hokkaido Shiodome em Tóquio, com vista sobre a baía, foi o redescobrir da gastronomia japonesa sem a pressa a que os locais estão habituados.

A gastronomia japonesa não é o complemento da viagem. É uma linguagem própria. E como qualquer língua, podes aprender o básico em duas semanas, mas a fluência leva tempo, curiosidade e disposição para te sentires perdido antes de te sentires em casa. Alguns saíram do Japão a querer aprender mais. Outros saíram a querer uma francesinha.

Ambos têm razão.

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…Voltar

No dia 3 de maio, de manhã, fui ao Meiji Shrine. Fiz uma pausa. Fiquei ali, a ouvir o vento nas árvores e algures numa árvore um corvo, que no Japão é considerado mensageiro divino, a fazer o seu barulho inconfundível e às 22h30 estava num avião de volta a Portugal.

O Japão não é um destino. É um argumento. Um argumento para uma forma diferente de estar no mundo, mais atenta, mais silenciosa, mais deliberada. Não estou a dizer que devemos tornar-nos japoneses. Estou a dizer que a exposição a uma civilização que resolveu determinados problemas de forma diferente… e melhor, faz-nos questionar as soluções que tomámos como certas.

Voltei com memórias, fotografias, e umas caixas de Castela, o tal doce tradicional japonês inspirado no pão-de-ló, que ainda não consegui comer porque me parece errado destruir algo tão cuidadosamente feito.

Voltei também com a certeza de que vou voltar.

E da próxima vez, fico mais tempo em Quioto.

Marco Lima ©cruiselovers.pt

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Marco Carlino de Lima

Especialista em Cruzeiros & Editor-Chefe

“Apaixonado pela experiência humana por trás de cada viagem, Marco Lima soma mais de duas décadas no setor dos cruzeiros e, dedica-se a desmistificar o mundo dos cruzeiros com partilhas autênticas, dicas práticas e uma paixão contagiante pelo oceano.”

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