Uma tendência que já não é novidade nenhuma nas Caraíbas: cruzeiros cada vez mais curtos, de 3 e 4 noites, a multiplicarem-se por toda a região. Galveston, Miami, Port Canaveral, Fort Lauderdale, todos os grandes portos de embarque nas Caraíbas seguem o mesmo caminho, e as principais companhias vão atrás umas das outras a lançar mais destas escapadinhas curtas. É um sinal claro de para onde vai esta indústria: obcecada em captar novos clientes através de viagens mais baratas, mais rápidas e mais fáceis de encaixar num fim de semana.
E percebo perfeitamente porquê. Do ponto de vista comercial, é quase genial. Um cruzeiro de 3 ou 4 noites custa menos, cabe num fim de semana prolongado e funciona como a porta de entrada perfeita para quem nunca pisou um navio na vida. Do ponto de vista de quem quer captar novos clientes e crescer a base, faz todo o sentido do mundo.
Só que vejo um problema que ninguém está a discutir com a seriedade que merece: o que é que acontece aos destinos quando multiplicamos estes cruzeiros curtos a um ritmo cada vez maior?
Mais navios, a fazer mais viagens, a parar nos mesmos portos, com muito mais frequência. Isto não é um pormenor, é receita garantida para overtourism. Filas cada vez maiores para descer a terra, escalas cada vez mais apressadas, experiências cada vez mais superficiais para quem visita. E não estou a falar de um cenário hipotético e distante, estou a falar do que já vemos hoje em alguns destinos.


A pergunta que me fazem com frequência em Portugal
“Devo começar por um cruzeiro curto antes de fazer um de 7 noites?”
A minha resposta continua a ser não, e mantenho-a sem hesitação. Um cruzeiro de 3 ou 4 noites não tem duração suficiente para perceberes se realmente gostas do formato. Mal entras no ritmo do navio, já estás a fazer as malas outra vez. Não dá para testar nada a sério nesse espaço de tempo.
Se queres perceber se os cruzeiros são para ti, precisas de tempo suficiente para sentires a rotina do dia a dia a bordo, para experimentares mais do que um ou dois tipos de dia (dia de mar, dia de escala, dia de relaxe), e para perceberes se aquilo que idealizaste antes de embarcar bate certo com a realidade. Isso não acontece em 72 horas.
Crescer sim, mas a que custo?
Multiplicar cruzeiros curtos sem investir paralelamente em gestão de portos, capacidade das escalas e planeamento de destinos não é uma estratégia de crescimento inteligente (na minha opinião). É resolver um problema comercial criando, de forma sistemática, um problema de destino. E quem paga essa fatura, mais cedo ou mais tarde, não é só a comunidade local. É também a própria indústria, quando os destinos começarem a limitar acessos, aumentar taxas portuárias ou, no pior cenário, a fechar portas a este tipo de viagens.
A indústria adora falar de sustentabilidade nos relatórios e nas conferências. Mas sustentabilidade não é só combustível alternativo e tratamento de águas residuais a bordo. É também não transformar cada porto simpático num parque temático com fila de três horas para descer do navio.
Os cruzeiros curtos têm o seu lugar, sem dúvida. Como estratégia de aquisição de novos clientes, funcionam. Mas se a indústria continuar a tratá-los como o motor principal de crescimento, sem travões nem responsabilidade sobre o impacto nos destinos, estamos a caminhar de olhos fechados para um problema que depois vai custar muito mais caro a resolver…
Marco Lima ©cruiselovers.pt
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